Publicado em: 04/08/2026

A mãe, Ana Gleyce Batista, e a paciente, Giovana Batista Tacco
Foi durante uma gripe forte, dessas que costumam passar de mãe para filha em poucos dias, que Ana Gleyce Batista percebeu que algo não ia bem com Giovana Batista Tacco, carinhosamente apelidada de Gigi. As duas contraíram o vírus praticamente ao mesmo tempo e, enquanto Ana Gleyce se recuperava sem grandes sustos, a filha, de 20 anos, começou a apresentar falta de ar já na manhã seguinte.
Giovana tem lisencefalia, uma condição rara em que o cérebro não desenvolve completamente suas dobras características — o que os médicos chamam, em termos mais simples, de “cérebro liso”. A malformação afeta a fala, a coordenação motora e as funções cognitivas, tornando a jovem totalmente dependente dos cuidados da mãe, inclusive nos momentos de crise respiratória.
Diante da piora do quadro, Ana Gleyce fez o que já havia aprendido ao longo de tantos anos cuidando da filha: tentou aliviar os sintomas em casa. Mas dessa vez não foi suficiente. Com o agravamento do cansaço, decidiu buscar atendimento médico para Giovana na UPA 24h de Peruíbe.
Foi ali, ainda na emergência, que a equipe percebeu a gravidade da situação e priorizou o atendimento. Horas depois, veio a notícia que surpreendeu a família: Giovana seria transferida para o recém-inaugurado Hospital Municipal de Peruíbe (HMP), localizado ao lado da UPA.
“Eu nem pensei no hospital. Acho que nem lembrei”, contou Ana Gleyce, relembrando que a cidade passou quase 40 anos sem uma estrutura hospitalar própria. A surpresa logo deu lugar ao alívio. Segundo ela, a equipe já aguardava a chegada de Giovana e recebeu mãe e filha com um cuidado que descreve como raro de encontrar.
“Eu senti um atendimento humanizado. Perguntavam sobre o histórico dela, sobre o que trazia conforto para ela”, relatou. Uma fisioterapeuta chegou a levar Giovana para tomar sol em uma área externa da unidade. Um gesto simples que, segundo a mãe, fez toda a diferença no ânimo da filha durante a internação.
Fora do hospital, Ana Gleyce trocou as tesouras e escovas de cabeleireira pela dedicação integral à filha. Hoje, também é voluntária no Vovozes Encantadas, grupo de mulheres que leva histórias a crianças em situação de vulnerabilidade. Além de narrar as histórias, participa da criação dos recursos utilizados nas apresentações, como bonecos e figurinos.
“Somos um grupo de mulheres dispostas a servir à sociedade levando amor e carinho. Essas crianças são a nossa alegria”, resumiu. Foi essa mesma disposição para agradecer que a levou a compartilhar publicamente a experiência vivida no HMP. “A gratidão é o que nos move”, afirmou, ao encerrar o relato sobre a passagem da filha pela unidade.

O diretor técnico da unidade, Dr. Cezar Kabbach, a gerente de enfermagem, Flávia Aparecida Vilela, e o diretor administrativo, Kaian Teixeira Volasco
CUIDADO QUE GERA APRENDIZADO
O caso de Giovana também deixou marcas em quem trabalha no hospital. O diretor técnico da unidade, Dr. Cezar Kabbach, tem uma relação especial com o HMP: ele estava presente em 1989, quando foi lançada a pedra fundamental do equipamento, e hoje se considera o médico mais antigo em atividade no município.
“Às vezes a gente vai fechando um ciclo na vida. Essa também está sendo a minha missão: ajudar a construir esse sonho, que é o sonho da nossa cidade”, afirmou.
Sobre o episódio de Giovana, ele destacou a importância do vínculo formado entre a mãe e a equipe de enfermagem. “A mãe sabia como trocá-la, como ela dormia, como se alimentava. A enfermagem aprendeu muito com essa mãe”, relatou.
Para Flávia Aparecida Vilela, gerente assistencial do hospital, receber elogios como o de Ana Gleyce reforça o propósito do trabalho diário da equipe. “O tratamento não está apenas na medicação. Está no acolhimento, na humanização e, principalmente, na empatia”, afirmou.
Segundo a gerente, o cuidado se estende também a quem acompanha o paciente, já que a rotina de internação costuma ser exaustiva para os familiares. “Temos muita preocupação em cuidar também do cuidador”, completou.
Inaugurado em 18 de junho, o Hospital Municipal de Peruíbe começou a receber pacientes em 22 de junho. Até o dia 31 de julho, a unidade registrou 61 internações, sendo 20 na UTI Adulto e 41 na Clínica Médica, a maioria de pacientes idosos.
Os principais motivos de internação no período foram problemas respiratórios, responsáveis por 37,7% dos casos, seguidos por condições cardiovasculares, com 21,3%, e geniturinárias, com 19,7%.
Administrado pela Fundação do ABC em parceria com a Prefeitura de Peruíbe, o hospital é 100% dedicado ao Sistema Único de Saúde (SUS) e programa para os próximos meses a abertura de novos serviços.

Atividades do grupo Vovozes Encantadas, do qual Ana Gleyce faz parte (fotos: arquivo pessoal)