Publicado em: 14/08/2026

A doença ocorre quando o sistema imunológico produz anticorpos que interferem na transmissão dos sinais entre os nervos e os músculos (foto: Divulgação/FMABC)
A miastenia gravis ganhou destaque recentemente após o jornalista e apresentador Alex Escobar revelar o diagnóstico da doença e passar por uma cirurgia para retirada do timo. O caso despertou a atenção do público para uma condição autoimune rara, que provoca fraqueza e fadiga muscular, e também para os avanços nas opções de tratamento.
Na região do Grande ABC, o Centro Universitário FMABC, em Santo André, se destaca no acompanhamento de cerca de 60 pacientes com miastenia gravis e na realização de pesquisas clínicas com novas terapias imunológicas.
Segundo a neurologista Dra. Ana Marina Dutra, que atua no Ambulatório de Doenças Neuromusculares, o número de pacientes acompanhados é significativo diante da baixa prevalência da doença, mas pode ainda estar abaixo do potencial da região. “Acreditamos que exista subdiagnóstico e queremos trazer esses pacientes para o nosso ambulatório”, explica. Os pacientes são encaminhados para o serviço pela regulação dos municípios.
A miastenia gravis ocorre quando o sistema imunológico produz anticorpos que interferem na transmissão dos sinais entre os nervos e os músculos. Como consequência, o paciente apresenta fraqueza que tende a piorar com o esforço e ao longo do dia e melhorar após períodos de repouso.
Entre os sinais mais característicos estão a queda das pálpebras, conhecida como ptose, muitas vezes de forma assimétrica, e a visão dupla. Também pode ocorrer dificuldade para mastigar e falar por períodos prolongados, além de fraqueza nos braços e nas pernas, que pode dificultar atividades como subir escadas, levantar-se de uma cadeira ou erguer objetos.
“A sensação de cansaço e fadiga é importante, principalmente quando se instala no final da tarde. Outro sinal importante é a queda de pálpebras, principalmente quando são assimétricas. Esses sinais já aparecem de forma bem precoce”, alerta Dra. Ana Marina.
O tratamento da miastenia passou por uma transformação nos últimos anos. Durante muito tempo, as principais alternativas incluíam medicamentos para controle dos sintomas, como corticoides e outros imunossupressores. Embora eficazes para muitos pacientes, essas terapias podem provocar efeitos adversos e nem sempre proporcionam controle adequado da doença.
A chegada de imunobiológicos e imunoterápicos mais específicos representa uma mudança importante nesse cenário. Essas terapias atuam em mecanismos específicos relacionados à resposta imunológica envolvida na miastenia e podem proporcionar controle mais rápido e eficaz da doença em pacientes selecionados, inclusive naqueles que não apresentam resposta satisfatória aos tratamentos convencionais.
É nesse contexto que ganha importância a atuação do Centro Universitário FMABC em pesquisas clínicas. Por meio do Centro de Estudo, Pesquisa, Prevenção e Tratamento em Saúde do ABC (CEPES), a instituição participa de protocolos desenvolvidos em parceria com empresas farmacêuticas para avaliar novas terapias destinadas a pacientes com miastenia.
A evolução dos tratamentos reforça também a importância do diagnóstico precoce. A identificação de sintomas como fadiga progressiva ao longo do dia e queda assimétrica das pálpebras pode levar à investigação da doença ainda em suas fases iniciais.
O diagnóstico é realizado a partir da avaliação neurológica e pode ser complementado por exames como eletroneuromiografia e testes para identificação de autoanticorpos associados à doença. Em determinados pacientes, também é necessária a investigação do timo, órgão que pode apresentar alterações relacionadas à miastenia, incluindo o aumento de volume ou a presença de timoma.
A retirada cirúrgica do timo, chamada timectomia, pode ser indicada em situações específicas e tem como objetivo contribuir para o controle da doença a longo prazo. A necessidade e o momento da cirurgia devem ser avaliados individualmente pela equipe médica, considerando as características de cada paciente e a evolução do quadro.
Para Dra. Ana Marina, o atual momento representa uma mudança de paradigma no tratamento da miastenia. “O desenvolvimento de terapias imunológicas mais direcionadas amplia as possibilidades de controle da doença e abre novas perspectivas para pacientes que, no passado, tinham opções terapêuticas mais restritas”, explica a especialista.