Publicado em: 22/10/2026

Vanderlei Camargo Freitas falou para a rede de saúde dos municípios do Grande ABC
O Hospital Estadual Mário Covas (HEMC), em Santo André, sediou em 14 de outubro o Encontro de Cuidados Paliativos da Região do Grande ABC, organizado pela Comissão Intergestores Regional do Grande ABC e pelo Núcleo de Educação Permanente e Humanização do hospital. Realizada no auditório da unidade, a atividade reuniu cerca de 60 profissionais de equipamentos de saúde municipais e estaduais da região.
O público foi diverso, entre atenção primária e hospitalar, rede de atenção às urgências, representantes das gestões municipal e estadual, além de integrantes das Equipes Multiprofissionais de Atenção Domiciliar (EMAD) e de paliativistas. O objetivo central foi rever o que, de fato, significa falar em cuidados paliativos.
A abertura foi feita pelo novo diretor-geral do HEMC, José Antonio Acemel Romero, que deu as boas-vindas aos participantes. Ele destacou a importância de integrar os serviços de saúde da região e de ampliar a troca de experiências entre os municípios. “Eu entendo que tem importância de que a gente possa fazer essa integração em todos os equipamentos”, afirmou. Boa parte dessas unidades do Grande ABC é gerenciada pela Fundação do ABC, a exemplo do próprio Mário Covas.
Em seguida, o assessor técnico de gabinete da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, Vanderlei Camargo Freitas, conduziu a palestra principal. Uma de suas atribuições é coordenar, no âmbito estadual, a implementação da Política Nacional de Cuidados Paliativos, publicada pelo Governo Federal em maio de 2024 e resultante de ampla mobilização popular e pactuação tripartite (esfera federal, estados e municípios).
DESMISTIFICAÇÃO
Logo no início, Freitas propôs aos presentes um exercício de desconstrução. Segundo ele, ainda prevalece no Brasil uma espécie de caricatura sobre o tema: a imagem de um paciente idoso, internado em uma UTI, em fase final de vida e sem mais nada a ser feito. Para o assessor, essa visão é limitada e, na prática, equivocada. Cuidado paliativo, explicou, não significa desistir de cuidar. “Na verdade, é o contrário”, afirmou.
Para ele, é preciso falar de vários fatores. “O cuidado deve vir de acordo com as demandas e tem um aspecto multidimensional que está envolvido em qualquer situação de adoecimento”, explica.
O conceito, esclareceu, diz respeito a uma atenção que considera as várias dimensões do adoecimento: a física, a psicológica, a social e a espiritual. Também leva em conta a rede de apoio do paciente e garante a ele um papel ativo nas decisões sobre o próprio tratamento. E vale para qualquer pessoa que enfrente uma condição clínica grave, que ameaça a vida, e não apenas para quem está nos últimos dias. Crianças, por exemplo, também fazem parte desse público.
Outro ponto levantado pelo palestrante foi a cautela que muitos serviços ainda têm ao usar a expressão. Ele conta que, em diversos lugares, a palavra “paliativo” é evitada, pois carrega um peso difícil de contornar. Familiares se assustam ao ouvi-la, e até profissionais de saúde acabam confundindo a gravidade do paciente com a de alguém em terminalidade. Por isso, Freitas sugeriu, em tom pedagógico, que os participantes deixassem a palavra de lado por um momento e pensassem simplesmente em cuidado: um cuidado que responde às necessidades reais de cada pessoa, em cada etapa.
Segundo o assessor, a identificação da necessidade desse tipo de abordagem costuma chegar tarde. Ele defendeu que a atenção paliativa pode, e deve, começar já no diagnóstico, ao lado dos tratamentos que buscam controlar ou curar a doença. Com o tempo, o manejo de sintomas, como a dor, ganha mais espaço, sem que isso signifique abandonar o paciente.
TERRITORIALIDADE
Freitas também chamou a atenção para o fato de que a política nacional tem como ponto nevrálgico um aspecto que vai além do ambiente confinado dos equipamentos de saúde. “O foco dela não é necessariamente o hospital, é o território”, afirmou. O grande desafio, segundo ele, é levar essa discussão à atenção primária à saúde, que acompanha as pessoas no dia a dia, e envolver todos os pontos da rede.
Para ilustrar, usou exemplos do cotidiano de quem convive com doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, que exigem medicação contínua, mudanças de hábitos e, muitas vezes, afetam a vida social e familiar do paciente. Citou ainda estimativas de que as condições crônicas devem crescer nas próximas décadas, o que torna ainda mais necessário um olhar atento ao sofrimento que elas provocam.
Ao final, o encontro deixou uma mensagem direta às equipes presentes: cuidados paliativos não marcam o fim das possibilidades. São uma forma de oferecer conforto, escuta e proteção a quem enfrenta uma doença grave e à sua família, em qualquer ponto da rede de saúde.