Publicado em: 24/04/2026

Valdiran Rocha Santos com os profissionais que o atenderam (foto: André Henriques/DGABC)
As lágrimas de Valdiran Rocha Santos já não cabiam mais no silêncio. Elas romperam assim que seus pés tocaram novamente a calçada do Hospital de Clínicas Dr. Radamés Nardini, unidade gerenciada pela Fundação do ABC em parceria com o município de Mauá. As mãos, levemente trêmulas, carregavam marcas que iam além das sequelas de um AVC — eram sinais vivos de quem voltou para agradecer àqueles que, em meio à rotina intensa, fizeram do cuidado uma missão.
Não era apenas um retorno. Era um reencontro com a vida. Com os corredores que testemunharam a urgência, o medo e, sobretudo, a esperança. Com rostos que, para muitos, passam despercebidos na pressa do dia a dia, mas que, para Valdiran, se tornaram inesquecíveis. Do atendimento na emergência à alta hospitalar, cada etapa foi marcada por uma rede silenciosa de profissionais que sustentam, diariamente, histórias que quase se perdem entre prontuários e plantões.
No dia 15 de março, Valdiran deu entrada no hospital após sofrer um AVC isquêmico. Foram dias de incerteza, de intervenções rápidas e decisões que não podiam esperar. Em poucas horas, o tempo parecia suspenso entre a fragilidade e a urgência. Mas foi justamente nesse intervalo crítico que a precisão médica e o cuidado humano fizeram a diferença.
Em 15 de abril, ao subir novamente ao 6º andar, a emoção transbordou. Um a um, ele fez questão de abraçar aqueles que estiveram ao seu lado: médicos, enfermeiras, auxiliares e fisioterapeutas. Profissionais que, para ele, deixaram de ser apenas funções e se tornaram parte de uma história de recomeço. “É emocionante para eu estar aqui falando”, disse com a voz embargada. “A forma que eu cheguei não estava nada bem. E hoje, voltar e poder agradecer. Isso não tem preço.”
Valdiran relembrou o momento do atendimento inicial, destacando a orientação decisiva do médico que o atendeu ainda na emergência. A escolha por permanecer na cidade, em vez de buscar outro serviço, foi determinante para a rapidez do tratamento. “Em pouco tempo eu já estava aqui. E isso fez toda a diferença”, contou. Entre lapsos de memória e a confusão natural de quem enfrenta um quadro neurológico, ele carrega uma certeza: o cuidado recebido foi além do técnico. “Eu me senti confortável com vocês. Muito bem tratado. Isso a gente não esquece.”
O agradecimento, no entanto, foi além da experiência pessoal. Com a sensibilidade de quem já atuou na área da saúde, Valdiran fez questão de reconhecer o papel silencioso desses profissionais na vida de tantas famílias. “Vocês têm um privilégio que muitas famílias gostariam de ter: estar ao lado de alguém em momentos que ninguém mais pode estar. Muitas vezes, vocês são presença quando o mundo lá fora não consegue chegar.”
Em meio à rotina exaustiva dos hospitais públicos, em que a sobrecarga muitas vezes fala mais alto que o reconhecimento, histórias como a de Valdiran servem como respiro — e lembrança. Lembrança de que, por trás de cada atendimento, há vidas sendo reconstruídas. Há laços sendo criados. Há humanidade pulsando. “Trabalhem por amor”, pediu, com a voz firme apesar da emoção. “O dinheiro faz parte, mas não paga isso aqui.”
Ao deixar o hospital, desta vez caminhando com mais firmeza, Valdiran levou consigo mais do que a recuperação física. Levou a certeza de que, em meio a tantas dificuldades, ainda existem lugares onde o cuidado é, acima de tudo, um ato de entrega. E, para quem ficou, talvez tenha ficado também algo raro na correria dos plantões: a lembrança de que, mesmo quando não são vistos, eles fazem diferença — e salvam não só vidas, mas histórias inteiras.