Publicado em: 18/03/2026

Silvana Medeiros (vice-prefeita de Santo André), Dr. Victor Chiavegato (diretor-geral do AME-SA) e Ana Carolina Serra (deputada estadual)
O Ambulatório Médico de Especialidades (AME) de Santo André inaugurou, no dia 16 de março, a Sala Lilás, um espaço dedicado ao acolhimento de mulheres vítimas de violência atendidas na unidade. A iniciativa chega em um momento de crescimento preocupante dos índices de violência de gênero no país.
Os dados são alarmantes. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou 1.568 feminicídios em 2025, um aumento de 4,7% em relação a 2024, quando foram contabilizadas 1.492 vítimas. Em 2023, o número foi de 1.475. A subnotificação, no entanto, indica que a realidade pode ser ainda mais grave.

Bóton dos “guardiões”
O AME Santo André atende, em média, mil pacientes por dia, sendo 80% desse total composto por mulheres. A Sala Lilás foi criada justamente para oferecer a esse público um canal seguro de escuta e encaminhamento. Profissionais de diversas áreas da unidade foram selecionados e receberam treinamento específico para atuar como “guardiões” do espaço, distribuídos entre os cinco andares do ambulatório, na proporção de dois a quatro por pavimento.
Cada guardião recebeu um bóton de identificação, tornando-se referência para os demais colegas. Quando outro profissional identificar sinais de violência em uma paciente, poderá acionar um guardião, que conduzirá o atendimento na sala. Entre as funções desempenhadas estão a escuta qualificada, o preenchimento da notificação compulsória junto ao sistema de vigilância e o encaminhamento para a rede de proteção, que inclui CRAS, CREAS e Delegacia da Mulher, entre outros serviços.

Silvana Medeiros, Dr. Victor Chiavegato, Rita Maria Santos Spontão e Ana Carolina Serra
URGÊNCIA
Para o diretor-geral do AME Santo André, Dr. Victor Chiavegato, a criação do espaço responde a uma necessidade urgente. “Infelizmente, temos visto nos últimos tempos um aumento no número de feminicídios. A ideia da sala é que possamos acolher essas mulheres aqui na unidade. Cada dia que passa, vemos que esse número de violência contra a mulher tem aumentado, não só a violência física, mas a psicológica e a moral também”, afirmou. “Se identificarmos que a paciente precisa de acolhimento, teremos essa Sala Lilás, com profissionais específicos para esse atendimento.”
A deputada estadual Ana Carolina Serra, que acompanhou a inauguração e recebeu uma placa com o título de Embaixadora da Sala Lilás, destacou a importância do equipamento. “Essa iniciativa é essencial para que possamos aumentar a proteção à mulher vítima de violência. Aqui transitam mais de mil pessoas por dia, e mais de 80% são mulheres que carregam histórias nas quais a violência pode estar presente no cotidiano. E aqui elas vão se sentir seguras para conversar, porque essa escuta é feita por profissionais qualificados, que podem dar o encaminhamento correto”, disse. “É um espaço simples, mas com grande efetividade no acolhimento. São com pequenas ações como essa que podemos transformar, aos poucos, essa triste realidade.”
A vice-prefeita de Santo André, Silvana Medeiros, também nomeada Embaixadora durante o evento, reforçou a necessidade de ação conjunta entre poder público, empresas e sociedade. “Para mim, é muito importante. Trabalhar sozinha não faz a diferença. As pessoas precisam se movimentar, o órgão público, as empresas, todo mundo tem que se movimentar para fazer a diferença na vida das mulheres”, declarou. “Ter a iniciativa de montar essa sala significa que as mulheres serão acolhidas no momento mais vulnerável, quando mais precisam.”
Rita Maria Santos Spontão, coordenadora de Qualidade do AME Santo André e articuladora do projeto, explicou o raciocínio que orientou a criação da sala. “Quando a mulher está nessa situação, muitas vezes, ela procura o serviço de saúde. É aonde frequentemente ela vai chegar”, disse. “Que bom que os profissionais tenham esse olhar para identificá-la. Temos aqui uma sala onde é feito o atendimento psicológico, um local reservado, para uma escuta qualificada. E a partir daí, esse contato com a rede, que oferece uma vasta gama de serviços.”

TRABALHO CONJUNTO
A criação da Sala Lilás é resultado de um trabalho coletivo que envolveu liderança institucional, engajamento da equipe e articulação com a rede de proteção local. O primeiro treinamento dos guardiões foi realizado na mesma data da inauguração, com duração de aproximadamente duas horas. A capacitação abordou desde a identificação dos sinais de violência até o mapeamento dos serviços disponíveis na rede para encaminhamento das pacientes.
A equipe de guardiões é composta por profissionais de diferentes funções dentro do AME, incluindo enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos, médicos, recepcionistas e funcionários da equipe de higienização, o que garante capilaridade no atendimento em todos os turnos e setores da unidade.
O projeto pretende ampliar os treinamentos ao longo do ano, alcançando toda a equipe do ambulatório. A meta é que qualquer profissional da unidade, ao identificar uma paciente em situação de risco, saiba como agir e a quem acionar. Também estão previstas visitas aos serviços da rede de proteção, para que os guardiões conheçam pessoalmente os equipamentos disponíveis no território.
A Sala Lilás do AME Santo André representa um passo concreto na articulação entre saúde e proteção social. Em um serviço que atende majoritariamente mulheres, o espaço cumpre tanto uma função humanitária quanto uma obrigação legal, ao transformar o ambulatório em um ponto de entrada seguro para mulheres que, muitas vezes, chegam sem verbalizar o que estão vivendo, mas carregando sinais que, agora, a equipe está mais preparada para reconhecer.
