Publicado em: 12/02/2026

Família da paciente e médicas do hospital
O Hospital da Mulher de São Bernardo, integrante do Complexo de Saúde de São Bernardo do Campo (CSSBC) e gerido pela Fundação do ABC, registrou um marco em seus 26 anos de história com a alta hospitalar de Ísis Manuelly Ribeiro do Nascimento, recém-nascida prematura extrema que nasceu com apenas 440 gramas e 26 semanas e 1 dia de gestação. Foi o menor bebê que já nasceu na maternidade. Após 4 meses e 10 dias de internação, sendo 118 dias na UTI Neonatal e mais 14 dias no berçário, a bebê deixou a unidade em ar ambiente, alimentando-se por aleitamento materno, pesando 2.260 gramas.
Ísis é filha de Sarah Cesar Ribeiro, 21 anos, e de Rogério Aparecido do Nascimento Júnior, 28, trabalhador da indústria de papelão. A família, que mora no bairro Alvarenga, realizou todo o acompanhamento pré-natal pelo SUS (Sistema Único de Saúde), inicialmente na UBS Alvarenga e, posteriormente, no Hospital da Mulher, serviço de referência para gestação de alto risco.
A viabilidade neonatal do Hospital da Mulher atualmente é superior a 501 gramas, com taxas de sobrevida acima de 50%. Até então, o menor bebê a receber alta na instituição havia nascido com 515 gramas. Ísis tornou-se, portanto, a menor recém-nascida a sobreviver e deixar o hospital em boas condições clínicas, um fato inédito para a unidade em quase 26 anos de atendimento especializado.
O parto ocorreu por cesárea em razão de restrição de crescimento intrauterino e pré-eclâmpsia materna. Durante a internação, Ísis permaneceu 104 dias intubada em ventilação mecânica e totalizou 116 dias em oxigenoterapia. Enfrentou múltiplos desafios clínicos.
A prematuridade é uma das principais causas de morbidade e mortalidade neonatal no mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 15 milhões de bebês nascem prematuramente a cada ano, representando aproximadamente 11 por cento dos nascimentos globais. No Hospital da Mulher, a taxa de prematuridade acompanha a literatura científica, mantendo média de 10 por cento.
De acordo com a OMS, é considerado prematuro todo bebê nascido antes de 37 semanas completas de gestação. Ísis enquadra-se na categoria de prematuro extremo, pois nasceu antes de 28 semanas, além de ser classificada como recém-nascida de extremo baixo peso, por ter nascido com menos de 1.000 gramas. No caso dela, 440 gramas.
MULTIDISCIPLINARIEDADE E HUMANIZAÇÃO
Apesar da gravidade inicial, a assistência multidisciplinar e humanizada foi decisiva para sua evolução. O Hospital da Mulher, credenciado como Hospital Amigo da Criança, priorizou o aleitamento materno desde o início, estimulando a ordenha e o uso do leite materno como base da nutrição. Paralelamente, foi iniciado precocemente o Método Canguru, permitindo o contato pele a pele entre mãe e bebê e fortalecendo o vínculo afetivo e o desenvolvimento clínico.
Para a mãe Sarah, o período de internação foi marcado por medo, fé e superação. Ela relembra que um dos momentos mais difíceis foi ouvir de uma médica que Ísis dificilmente deixaria o hospital sem oxigênio. No entanto, a bebê surpreendeu a equipe e recebeu alta respirando espontaneamente. Sarah destaca o apoio da equipe multiprofissional e afirma que a experiência mudou sua vida. Rogério, o pai, afirmou que a alta representou o dia mais feliz de sua vida, após meses de incertezas e dedicação diária ao acompanhamento da filha no hospital.
EVOLUÇÃO POSITIVA
Na primeira consulta pós-alta, realizada em 4 de abril de 2025 no Ambulatório Canguru do Hospital da Mulher, Ísis apresentou evolução positiva. Ela saiu de alta com 2.260 gramas e já pesava 2.432 gramas na avaliação de retorno. Segundo a pediatra da equipe de Neonatologia do Hospital da Mulher Dra. Cynthia Fernandes, esse acompanhamento é essencial para consolidar o vínculo mãe-bebê e garantir ganho de peso adequado.
“Esse retorno é muito importante para manter o vínculo do bebê com a mãe. A posição canguru deixa a criança mais estável, auxilia no ganho de peso e fortalece o aleitamento materno, e é exatamente isso que estamos observando. Estamos muito felizes com a evolução dela.”
Para a diretora técnica do Hospital da Mulher, Dra. Adlin Veduato, o caso reforça a relevância do investimento público em UTI Neonatal de alta complexidade e no cuidado humanizado, além de evidenciar a força do trabalho integrado entre diferentes profissionais da saúde. “O desfecho da história da Ísis demonstra a importância de uma rede de atenção materno-infantil forte, integrada ao SUS e comprometida com a vida”, destaca.
“O Hospital da Mulher cumpre seu papel ao oferecer tecnologia, equipe qualificada e cuidado centrado na família, mas nada disso seria possível sem a atuação dedicada, articulada e sensível de nossa equipe multidisciplinar composta por médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, nutricionistas, psicólogos, assistentes sociais e demais profissionais que acompanharam cada passo dessa trajetória. Esse trabalho coletivo garante não apenas a sobrevivência, mas qualidade de vida aos nossos recém-nascidos.”
ACOMPANHAMENTO PROLONGADO
Por ter sido prematura extrema e apresentado intercorrências graves, Ísis seguirá em acompanhamento ambulatorial especializado até os 7 anos de idade no próprio Hospital da Mulher, com equipe multidisciplinar. O seguimento permitirá monitorar desenvolvimento neuropsicomotor, visão, audição, crescimento e possíveis sequelas tardias, com intervenções precoces sempre que necessário. Bebês que saem de alta com menos de 2,5 kg seguem inicialmente no Ambulatório Canguru e, posteriormente, mantêm acompanhamento integrado com a rede básica de saúde.
A condução clínica do caso de Ísis contou com atuação integrada das duas coordenações médicas da Neonatologia do Hospital da Mulher. Para a médica coordenadora de Neonatologia, Dra. Cibele Lebrão, o caso da Ísis exigiu coordenação clínica permanente, decisões médicas precisas e comunicação transparente com a família. “Sua trajetória mostra que a organização do cuidado e a continuidade assistencial são tão determinantes quanto a tecnologia para um desfecho bem-sucedido.” A coordenadora de Neonatologia, Dra. Gleise Aparecida Moraes Costa, reforça que a história da Ísis revela que vale a pena investir nas melhores práticas, no leite materno e no cuidado humanizado. “Não buscamos apenas salvar vidas, mas garantir qualidade de vida, com trabalho coletivo e confiança no SUS.”
O secretário de Saúde de São Bernardo, Dr. Jean Gorinchteyn, ressalta que o caso da pequena Ísis consolida o papel do Hospital da Mulher e de toda a rede de pública de saúde da cidade como um serviço de altíssima qualidade, com estrutura e equipes preparadas para casos de neonatologia de alta complexidade. “Mais do que um marco histórico, sua trajetória evidencia a capacidade do SUS em oferecer cuidado qualificado, acompanhamento contínuo e resultados concretos às famílias que enfrentam a prematuridade extrema”, finaliza.