Publicado em: 13/03/2026

A endometriose, durante muito tempo empurrada para o campo do silêncio, ganhou espaço oficial no plenário da Câmara Municipal de Santo André na noite de 12 de março de 2026. A sessão solene em comemoração à Semana de Educação Preventiva e de Enfrentamento à Endometriose e ao Dia Nacional de Luta contra a Endometriose – celebrado neste 13 de março – reuniu representantes do poder público, da área da saúde e mulheres que convivem diariamente com a doença, em um encontro marcado por relatos emocionantes e apelos por mais políticas públicas.
A solenidade foi presidida pelo vereador Renatinho Santiago, autor do requerimento que deu origem ao evento e também de iniciativas legislativas ligadas ao tema no município. Compuseram a mesa a vice-prefeita Silvana Medeiros, representando o prefeito Gilvan Ferreira, e a deputada estadual Ana Carolina Serra. Também participaram autoridades da saúde e do ensino médico, entre as quais o presidente da Fundação do ABC, Dr. Aldemir Humberto Soares, e o reitor do Centro Universitário FMABC, Prof. Dr. Fernando Fonseca, além de diretores de unidades de saúde estaduais e municipais da região do ABC.
Mais do que uma cerimônia formal, a sessão teve tom de mobilização. Ao abrir os pronunciamentos, Ana Carolina Serra afirmou que “a dor não é normal” e defendeu mais investimento em exames de imagem especializados, capacitação médica e pesquisa. Segundo a deputada, o debate precisa sair do campo da empatia discursiva e alcançar orçamento, estrutura e ação prática, especialmente em uma área que afeta milhões de mulheres e ainda convive com subdiagnóstico e invisibilidade.
A fala da parlamentar dialogou com uma percepção repetida ao longo de toda a noite: a de que muitas mulheres ainda passam anos ouvindo que a dor menstrual intensa seria algo comum. O próprio vereador Renatinho Santiago reforçou essa crítica ao afirmar que a endometriose “não é exagero”, “não é drama” e “não é frescura”. Para ele, levar o tema ao Legislativo significa assumir responsabilidade pública diante de um problema que compromete a vida emocional, profissional e familiar de milhares de mulheres.

Renatinho Santiago, Dr. Aldemir Humberto Soares e Ana Carolina Serra
Durante a solenidade, foi exibido um vídeo institucional sobre a lei municipal que instituiu o Programa de Prevenção e Tratamento da Endometriose em Santo André. No material, foram destacados sintomas recorrentes, a dificuldade de diagnóstico e a necessidade de atendimento especializado. O vídeo também ressaltou a expectativa de ampliação do acesso ao tratamento no município, a partir da regulamentação da política pública já aprovada.
A sessão ganhou ainda mais força com os depoimentos de mulheres diretamente afetadas pela doença. Foi o caso de Wendy Ruas, por exemplo, de 31 anos, que contou como conviveu por anos com a suspeita da doença, até conseguir o primeiro laudo somente em 2025, após pagar por uma ressonância em hospital particular. Segundo ela, foram sete anos tentando provar que sua dor era real. Em sua fala, fez um apelo para que profissionais e serviços de saúde não desacreditem o sofrimento das pacientes e defendeu a necessidade de melhorias estruturais.
As manifestações das pacientes encontraram eco nas falas das autoridades presentes. Silvana Medeiros, vice-prefeita de Santo André, afirmou que a política pública precisa ser transformada em prática cotidiana e destacou o papel do núcleo especial de políticas para as mulheres, criado pelo município, como elo entre a legislação e a execução de ações articuladas na rede de saúde.
Na área técnica, a Dra. Maria Odila Gomes Douglas, do Centro Universitário FMABC, destacou que o Ministério da Saúde já estabeleceu protocolos e diretrizes terapêuticas para o diagnóstico da endometriose. Ela enfatizou que a cólica menstrual precisa ser valorizada como um sinal de alerta e defendeu que o cuidado deve ser integral: “A mulher não precisa só do ginecologista; ela precisa do psicólogo, de um clínico cuidador, nutrição e exercício físico. O atendimento deve ser multiprofissional”, afirmou a médica.
Em fala posterior, o presidente da Fundação do ABC, Dr. Aldemir Humberto Soares, reforçou que hoje há condições de realizar o diagnóstico, desde que existam equipamentos adequados, técnica apropriada e investimento. Segundo ele, não basta diagnosticar se o sistema não consegue oferecer o tratamento, inclusive cirúrgico, quando necessário. Ao citar o Hospital Mário Covas como unidade capacitada para os casos mais complexos, ponderou que a ampliação das cirurgias depende de reforço financeiro e apoio institucional.

Renatinho Santiago e Dra. Maria Odila Gomes Douglas
Ao longo do evento, o vereador Renatinho Santiago mencionou números que ajudam a dimensionar a demanda reprimida. Segundo ele, Santo André teria mais de 40 mil mulheres com diagnóstico de endometriose, enquanto a região do ABC somaria mais de 120 mil casos, muitos deles com pacientes à espera de cirurgia de alta complexidade. O vereador também defendeu a implantação de um ambulatório da dor e de um ambulatório da mulher, como estratégias para ampliar o cuidado preventivo e o acompanhamento contínuo.
“Em 13 de março celebramos o Dia Nacional de Combate à Endometriose, uma data para dar visibilidade a uma doença que afeta milhões de mulheres e que, por muito tempo, foi marcada pelo silêncio e pela falta de diagnóstico. O encontro na Câmara representa um marco importante: a dor da endometriose não será mais silenciada em nossa cidade. Nesse sentido, estamos sugerindo a criação de um ambulatório da dor e também do ambulatório da mulher. Seguimos avançando com projeto de lei e indicações ao poder público, buscando ampliar o acesso ao diagnóstico, ao tratamento adequado e ao acolhimento que nossas mulheres merecem”, afirma o vereador Renatinho Santiago.
A sessão solene terminou com agradecimentos e com uma mensagem que se repetiu desde a abertura: a necessidade de transformar debate em ação. Em vez de tratar a endometriose como assunto restrito ao consultório ou à esfera privada, o encontro na Câmara de Santo André colocou a doença no centro da agenda pública. E deixou claro que, para as mulheres que convivem com dor, sangramento, espera e descrédito, visibilidade não é um gesto simbólico. É o primeiro passo para garantir dignidade, acolhimento e tratamento.